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domingo, 12 de abril de 2009

Eu corro

17h. O sol já não maltrata tanto. O ponto de partida pode ser o Porto da Barra. De início o aquecimento na baulastrada, em seguida uma corrida normal, como tantas vezes já havia feito e, como tantas outras, normal apenas no começo, até as lembranças e vozes internas te questionarem.

EXORCISAR É PRECISO!

Aumenta-se o ritmo, a corrida já não é mais na calçada, é no asfalto, é dada a largada, uma competição entre você, seus tormentos e os carros. A alma se solta, ganha asas e você já não acompanha o compasso dos pés tocando o chão.


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texto - danilo rohrs
leitura - joão vinícius
música - joão vinícius

domingo, 8 de março de 2009

Perifton


Nunca bebo antes do meio dia, sempre achei que pegava mal, mas o bar abre às oito e eu estava mesmo afim de uma sinuca. Já reparou a quantidade de coisas que fazemos ou deixamos de fazer por simples convenção? Das coisas mais banais às decisões mais importantes de nossas vidas, muitas delas são condicionadas por coisas que nem sequer acreditamos, a começar pela idéia fixa de que todo mundo precisa estudar para ser rico. Eu desperdicei minha adolescência estudando coisas que não me ajudaram em nada com os reais problemas da vida, fiz uma faculdade na qual aprendi muito pouco sobre quase nada. Mas a vida ainda tinha suas surpresas, eram 14h e entrava pelo bar um velho amigo que já não via há muitos anos, um dos poucos que aturava o meu mau humor, seu nome era Garcia, mas os amigos o chamavam de David, porque ele tinha um olho de cada cor, como o “Camaleão”.

De primeira ele não me reconheceu, passou direto por mim e foi ao balcão pedir por cerveja e cigarros.

-- Vou acompanhar esse rapaz numa cerveja, garçom, desce duas.

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texto - danilo rohrs

domingo, 1 de março de 2009

Perifton


Nunca gostei de enterros, eles enfiam um chumaço de algodão no seu rabo, te colocam uma roupa bonita e maquiagem, depois te enterram para que os vermes te comam por algumas semanas e as pessoas olhem uma última vez para aquele corpo vazio, sentindo pena. Sendo assim, achei melhor cremar o corpo de Marta.

A cerimônia foi no dia seguinte, não senti nada durante e depois do ocorrido, a não ser alívio.

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texto - danilo rohrs

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Perifton


A casa era luxuosa, dez enormes quartos e um jardim que dava para criar gado. Era algo comum na vizinhança, lugar conhecido pelas mansões. A mulher deitada na mesma cama é uma desconhecida de muitos anos de casamento. Era uma mimadinha vagabunda, de belas curvas, devo dizer, interessada em aventuras que seu dinheiro não podia comprar. Eu queria sexo e filhos, ela queria chocar o que sobrou da família. Marta era herdeira de uma fortuna amaldiçoada, seus pais e boa parte da família havia morrido de causas atípicas. Contava algumas destas causas rindo do azar dos seus parentes distantes, histórias que ela ouvia da mãe quando era menina.

Depois de alguns anos de casamento, ela se escondia pelos cantos da casa, evitando a verdade: Marta era estéril e resolveu nunca me contar, pois sabia que não me casaria com uma mulher que não pudesse me dar filhos, eu achava que, de alguma maneira, um filho mudaria a minha vida, eu teria realmente um objetivo digno para me dedicar. Quantas pessoas sobrevivem todos os dias sem um ideal? Mas, ao que parece, não estava no meu destino.

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texto - danilo rohrs

Perifton


1

Todo dia tentando sair dessa rotina infernal, acordo, como, trabalho. Tenso, corro de um lado para o outro sem saber o que estou à procura. É como o instante após levar uma pancada daquelas na cabeça. Alguns comprimidos e um cowboy duplo, como rege a lenda, um bom e velho Jack Daniel’s deve ser tomado na sua essência.

À noite finalmente me sinto vivo de verdade, a noite é o meu déjà vu preferido, o clima de expectativa no ar, presente na fumaça de um cigarro ou no mistério por trás de olhos maquiados, escuros e lábios carnudos coloridos.

As drogas, como tudo que nos aproxima da morte, me preenchem de vida, bela contradição; com certeza nada comparado ao sexo, puro e simples, não só me sinto vivo nesse momento mas assistido pelos deuses. Além disso, preferia muito mais o desafio de viver a realidade com sobriedade. Com o tempo meu egoísmo se transformou em filosofia de vida. Não que exista outro objetivo além de sobreviver e cumprir minha rotina diária, às vezes pensava nisso depois do quarto orgasmo, deitado na cama ao lado de qualquer vagabunda sem valor. Mas, naquele dia, 5 de novembro, pensei que sobreviver talvez fosse uma opção minha, estava na hora de mudar. 5 de novembro: o marco zero, o início de uma nova vida e o fim de toda essa agonia.

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texto - danilo rohrs
ilustração - danilo rohrs