A poesia não se entrega a quem a define, já dizia Mário Quintana. Mas a poesia pode definir muito bem as coisas, como é o caso do texto que aqui trazemos, do patriarca das letras baianas Gregório de Matos, o primeiro dos poucos gênios literários que brotaram desta terra, quase 400 anos atrás. E tão atual...
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texto - gregório de matos leitura - breno fernandes e joão vinícius música -dilermando reis
Escrito por Gonçalves Dias em 1843, quando estudava em Portugal, Canção do exílio é um poema que não perdeu o viço. Talvez pela atmosfera ufanista, que eleva o Brasil ao paraíso que todos gostaríamos que ele fosse. Talvez pela simplicidade melódica e semântica de seus versos, que já foram apropriados até por professores de matemática -- Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá / Seno a, cosseno b / Seno b, cosseno a.
Não só os professores de matemática parodiam Gonçalves Dias, diga-se de passagem. Muitos foram os grandes poetas que fizeram a sua versão particular de Canção do exílio: Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, José Paulo Paes...
Com as nossas limitações, nós também fizemos a nossa.
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texto - breno fernandes e joão vinícius leitura - breno fernandes e joão vinícius música incidental - luigi boccherini [allegro brioso assai] execução - sesstetto chigiano mixagem & arranjo final - joão vinícius
O lixo non está só nas rúas, nos vertedeiros, tamén está en nós mesmos. Temos dentro moitas palabras que sobran, tensións que sobran. Este traballo é a expresión do lixo non localizado, que forma parte de nós pero non sabemos por qué, non lle damos uso. Por iso nos distorsiona, obtemos un ritmo raro que se "apodera" de nós.
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foto - lois blanco texto - lois blanco leitura - lois blanco música - joão vinícius
Fim de festa, o trajeto de retorno para casa é inevitavelmente um instante para reflexão. Pensamentos se formam e se desfazem com a mesma facilidade, eus-poéticos nos tomam como o anjo e o diabo, cada um de um lado, muitas vezes não para nos conduzir a ter uma atitude correta ou errada, mas para atos de reflexão. Enquanto o sol começa a lembrar-se que todo dia ele tem um cadeira cativa por 12 horas no céu, a cidade ainda dorme. Quem se dirige no sentido Orla-Centro de Salvador, certamente passa pelo Cristo da Barra, e de lá é possivel avistar o Farol da Barra sem nenhum obstáculo pela frente -- um cartão postal que te insere nesta paisagem de um céu laranja, rasgos de luz e um leve cheiro de maresia que te leva a observar o horizonte ou te conduz a contemplar a ilha.
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imagem -baixaki manipulação de imagem - joão vinícius texto - joão vinícius e lois blanco leitura - joão vinícius e lois blanco música - joão vinícius
División molecular é unha metáfora da soidade. É a falta de algo que queres pero non te atreves a afrontar. Cando un se sente só e imaxina atrapa as cousas sen atrapalas, e sufre. Tamén é querer partirse en dous mentres olvidamos os nosos propios sentimentos.
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texto - lois blanco leitura - lois blanco música - joão vinícius
Entre a preocupação em tirar boas notas e a diversão de trabalhar com os amigos, nasceu o 8x8. Esse curta é uma realização de alunos de Jornalismo da UFBA, feito para a disciplina de Audiovisual. Montamos o quebra cabeças, demos forma ao nosso filhote a partir de uma livre adaptação do conto Copromancia, de Rubem Fonseca. A estrutura que sustenta o produto final é de risadas, broncas, suor, amor, gritos, nãos, sims, cervejas, poiera, vontade, sem-vontade. A liga nós demos na mão, de mãos dadas.
Selecionado para a Mostra de Cinema e Vídeo da 5ª Bienal de Arte, Ciência e Cultura da UNE, no Cine Odeon [Rio de Janeiro], ganhador do prêmio Melhor Ficção no Festival Integrado de Cinema Universitário (2006), tem seu enredo focado na invasão de privacidade, retratando uma situação extrema, quando o personagem principal se vê compartilhando uma estranha mania com a sua mais recente companheira.
elenco - ugo sangiorgi (pedro) e lis schwabacher (anita) direção - luigi piccolo, nina neves e edinaldo júnior roteiro - luigi piccolo argumento - luciana rebouças videomakers - edinaldo júnior e nina neves produção - nina neves e rafaela chaves edição - edinaldo júnior, luigi piccolo, nina neves, rafaela chaves e varand@ audiovisual orientação - ana paula guedes
Olha eu tô muito ocupado arrumando a mochila e o apartamento aqui do lado está em reforma o barulho tá incomodando minha concentração a televisão ligada meus primos jogando video-game no outro quarto meu irmão tocando bateria e a serra elétrica do mega man na novela das oito não tá dando para arrumar a mochila com todo essa rave do trabalhador tô ficando surdo ih tô vendo tô surdo olha só o que foi mesmo que você vai dizer?
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texto - gabe pardal leitura - gabe pardal música - joão vinícius
Diferentemente do que é genialmente dito em "Swing de Campo Grande" pelos já nem tão novos, mas geniais, Novos Baianos, minha carne definitivamente não é de carnaval e meu coração é igual. Aí antes que você me pergunte eu digo que sim, sim, já saí sim em bloco de carnaval aqui em Salvador.
Se foi pra bater recordes de beijos, cheirar muito lança pra ficar doidão e tirar o pé do chão? Não, não, não... Pode até soar meio brega dizer isso, mas foi por amor mesmo. Em duas ocasiões acompanhei uma antiga namorada num bloco. Mas se não fosse por essa causa nobre, creio que não o teria feito. Mas valeu. Costumo dizer que vivi na pele uma experiência antropológica e tanto...
“Carne Aval” é a materialização de algumas das reflexões que em algum momento da minha vida eu fiz sobre a falta de sentido e a loucura que é experimentar fazer parte desta que é considerada a maior festa popular do universo. Acompanhem. Concordem. Discordem...
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texto - gabriel camões leitura - gabriel camões música e mixagem - joão vinícius
No decorrer dessa vida de ouvinte de música, sempre me abordaram com esse questionamento e, por mais que a resposta estivesse na ponta da língua, sempre me senti culpado, com um sentimento de INSATISFAÇÃO, em não optar por nenhuma das duas. Parece pecado às vezes. Contudo...
-- Garçom, pede para a ANTÁRTICA descer umas BRAHMAS.
Pra mim:
-- Garçom, pede para a SOL descer umas NOVA SCHINS.
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texto - joão vinícius e breno fernandes (tradução ao francês) leitura - joão vinícius e breno fernandes música - joão vinícius
Falar de suicídio sempre foi um tema bastante delicado pra algumas pessoas... Não pra mim. Fico pensando que já somos mais de 6 bilhões no mundo e não faço a menor idéia de quantos de nós já sentiu vontade de se matar. Mas também não me importo em saber. Sei que muitos já o fizeram.
Embora já tenha desejado “morrer só um pouquinho” ou tenha sentido em muitas ocasiões uma já costumeira “preguiça de existir”, este texto em momento algum quis ser uma ode ao suicídio. Uso apenas o aspecto simbólico deste ato para sugerir que um simples salto pode dar ao corajoso que resolve pular, a condição de liberdade... Seja em sonho ou em vida.
Falo do desejo de libertação de certos padrões, valores e modelos da vida que as pessoas têm levado nas grandes cidades... Cada vez mais sujas, cada vez mais cinzas, cada vez mais caóticas. Esse foi o meu ponto de vista do alto da varanda em que me vi, naquele momento de catarse em que o lápis tocou um pedaço de papel. Isso se transformou em “O Salto”.
A parte sonora, feita por João, já existia antes mesmo de eu escrever o poema. Escrevi sem saber, mas quando falei a João, ele a tirou da manga e ela casou perfeitamente com a atmosfera sugerida no texto.
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foto e manipulação - joão vinícius texto – gabriel camões leitura – gabriel camões música – joão vinícius
Nunca bebo antes do meio dia, sempre achei que pegava mal, mas o bar abre às oito e eu estava mesmo afim de uma sinuca. Já reparou a quantidade de coisas que fazemos ou deixamos de fazer por simples convenção? Das coisas mais banais às decisões mais importantes de nossas vidas, muitas delas são condicionadas por coisas que nem sequer acreditamos, a começar pela idéia fixa de que todo mundo precisa estudar para ser rico. Eu desperdicei minha adolescência estudando coisas que não me ajudaram em nada com os reais problemas da vida, fiz uma faculdade na qual aprendi muito pouco sobre quase nada. Mas a vida ainda tinha suas surpresas, eram 14h e entrava pelo bar um velho amigo que já não via há muitos anos, um dos poucos que aturava o meu mau humor, seu nome era Garcia, mas os amigos o chamavam de David, porque ele tinha um olho de cada cor, como o “Camaleão”.
De primeira ele não me reconheceu, passou direto por mim e foi ao balcão pedir por cerveja e cigarros.
-- Vou acompanhar esse rapaz numa cerveja, garçom, desce duas.
Existe uma música lado B do Capital Inicial que sempre me deixou abalado. Rita, chama-se, e começa dizendo que à frente um horizonte se estende/ visões de você dançam em minha mente / ao entardecer uma dança indecente/ cresce em mim o prazer/ sou multidão e estou só...
A Rita do Dinho Ouro-Preto, Roberto Peixoto e Bozzo Barretti sempre me pareceu uma femme fatale. E eu queria machucá-la, dominá-la para que, assim, pudesse respirar em paz, sem visões de você [que] dançam em minha mente nem minha ânsia pelo seu suor.
Explicando o contexto de surgimento do poema para João Vinícius, ele me sugeriu que, em vez de declamá-lo hermeticamente, deixasse espaço para aquele meu discurso indignado, chocado, molestado. Com a ajuda da sua bela música de fundo, acho que consegui expurgar o fantasma de Rita.
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texto - breno fernandes leitura - breno fernandes música - joão vinícius
É o seguinte, maluco, tá tudo legalzinho aí contigo? Tem tomado direitinho sua Vitamina C? Aquele cafezinho pela manhã, um ou dois cigarrinhos depois do almoço, a cervejinha no final da tarde... tá tudo uma beleza. Maluco são os loucos que moram no hospício, contigo tá tudo na mais perfeita nor-ma-li-da-de. Então beleza, tá massa, amanhã a gente se fala, só liguei pra saber se tá tudo certinho. Vou ali voltar pro quarto e tomar minha pastilha existencial. Té mais, doido.
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imagem - gabe pardal texto - gabe pardal leitura - gabe pardal música - joão vinícius
Nunca gostei de enterros, eles enfiam um chumaço de algodão no seu rabo, te colocam uma roupa bonita e maquiagem, depois te enterram para que os vermes te comam por algumas semanas e as pessoas olhem uma última vez para aquele corpo vazio, sentindo pena. Sendo assim, achei melhor cremar o corpo de Marta.
A cerimônia foi no dia seguinte, não senti nada durante e depois do ocorrido, a não ser alívio.
Uma tarde de sábado, uns seis, sete, oito anos atrás, a falta de perspectiva pro dia nos prendia em frente ao mIRC e ao ICQ (vocês lembram disso, crianças?). Resolvemos, então, testar a capacidade de produção via internet. Fizemos Lolita.
Anos depois, João Vinícius desenterrou o poema, não achou grande coisa. Alterou algumas partes e musicou-o. A versão para o Coletivo ainda não é a original, mas uma outra leitura sobre a já então musicada.
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texto - breno fernandes e joão vinícius leitura - joão vinícius música - joão vinícius
Lembra daquela história de que um grupo de amigos
que se conheceu no colégio ou na faculdade resolveu se
juntar para formar uma banda? Pois é... Esqueça a banda.
Aqui um grupo de amigos resolveu se juntar com um único propósito:
fazer barulho.
MUITO BARULHO POR NADA, além de ser uma honrosa menção
ao mestre Shakespeare, é também uma forma de (não) deixar clara a despretensão
que permeia esse projeto. Aqui vale fazer barulho com tudo: música, prosa, poesia, literatura, cinema, teatro, conversas, risos, espirros, roncos e o que mais a improvisação nos sugerir.
Nada mais a declarar.
Muito Barulho a fazer.
"O resto é silêncio", como diria o camarada Hamlet...